O Design como Conceito
A palavra “design” se origina do latim. O verbo “designare” é traduzido literalmente como “determinar”, mas significa mais ou menos: “demonstrar de cima”. O que é determinado está fixo. Design transforma o vago em determinado por meio da diferenciação progressiva. Design (designatio) é compreendido de forma geral e abstrata. Determinação por meio da apresentação. A ciência do design corresponde à ciência de determinação.
Holger van den Boom, 1994
Leonardo da Vinci é mencionado como o primeiro designer. Paralelo a seus estudos ciêntíficos, de anatomia, óptica e mecânica, ele é considerado o precursor do conhecimento das máquinas, ao escrever o “Manual de Elementos de Máquinas”. Os artefatos práticos, máquinas e mecanismos têm mais um significado técnico do que uma orientação de conformação, abrangida pelo termo Design.
Do mesmo modo, houve uma representação que influenciou de forma decisiva o design: o designer como criador (inventor).
O pintor, arquiteto e autor de textos sobre arte do século XVII, Giorgio Vasari, é um dos primeiros a defender em seus escritos o caráter autônomo das obras de arte. Segundo ele, a obra de arte deve sua existência a um princípio que ele intitulava “disegno“, que na tradução significa “desenho” ou “esboço”. Em todos os tempos, “disegno” traz uma ideia artística e por isso na época havia a diferença entre “disegno interno” (o conceito, esboço, projeto ou plano para a obra de arte) e o “disegno externo” (a obra de arte completa). Para ele, o “disegno” era pai de três artes: a pintura, a plástica e a arquitetura.
No ano de 1588, pela primeira vez o termo “Design” foi mencionado e descrito no “Oxford Dictionary“:
- Um plano desenvolvido pelo homem ou um esquema que possa ser realizado;
- O primeiro projeto gráfico de uma obra de arte;
- Um objeto das artes aplicadas ou que seja útil para a construção de muitas obras.
Siegfried Giedeon descreve como no século XX se introduziu o designer industrial.
- “Ele formava a carcaça, cuidava do desaparecimento dos mecanismos visíveis (da máquina de lavar) e dava a tudo formas aerodinâmicas como de um trem ou automóvel.”
Esta clara divisão entre trabalho técnico e de configuração do produto fez com que nos Estados Unidos a atividade do designer tendesse cada vez mais para o “styling“, ou seja, em direção a um puro formalismo.
O termo “Design Industrial” foi utilizado pela primeira vez por Mart Stam em 1948. Stam entendia por “projetista industrial” aquele que se dedicasse, em qualquer campo, na indústria especialmente, à configuração de novos materiais.
Na antiga República Democrática Alemã, entendia-se o design como parte da política social, econômica e cultural. Horst Oelke (1978) chamou a atenção para que a configuração formal não se ativesse somente aos aspectos sensoriais e perceptivos dos objetos, mas que o designer deveria se voltar também a meios de satisfazer as necessidades da vida social ou individual.
Em uma das exposições no Internacional Design Center de Berlin, em 1979, foi elaborada uma descrição muito abrangente (e portanto útil):
- O bom design não se limita a uma técnica de empacotamento. Ele precisa expressar as particularidades de cada produto por meio de uma configuração própria. Ele deve torna visível a função e o manejo do produto, que proporcione uma leitura clara para o usuário.
- O bom design deve tornar transparente o estado-da-arte da técnica utilizada.
- O bom design não deve se ater apenas no produto em si, mas deve responder a questões do meio ambiente, da economia de energia, da reutilização, de duração e de ergonomia.
- O bom design deve se configurar a partir da relação entre homem e objeto.
O resultado destas considerações se chama “Grand Design”. Joschke Fischer esclarece, com grande paixão, que em um “Grand Design” tudo se relaciona a tudo: a economia mundial e a conjuntura, o desenvolvimento demográfico e os salários, a união alemã e a Europa.
Der Spiegel, 6/2003
Nessa descrição, encontramos os aspectos funcionais (funções práticas) lado a lado com os aspectos de linguagem do produto, além dos aspectos ecológicos do design (cada vez mais importantes).
Na Documenta 8, em Kassel, Michael Erlhoff formula uma definição clara e atual do design:
- Design – que, diferente da arte, precisa de fundamentação prática – encontra-se principalmente em quatro afirmações: como ser social, funcional, significativo e objetivo.
Essa definição permaneceu até o final dos anos 80, quando uma definição comum, ideologicamente fixada, do design dominou. Por meio dos argumentos dos pós-modernos, o conceito geral de design é hoje diluído em diversas disciplinas.
A diversidade de definições e descrições acontece por um pluralismo necessário e justificável. Na virada do século XX para o XXI, sugeriu-se que ao invés de uma nova definição ou descrição do design fossem nomeados alguns problemas que o design deverá sempre atender:
- Visualizar progressos tecnológicos;
- Priorizar a utilização e o fácil manejo de produtos (não importa se “hardware” ou “software”);
- Tornar transparente o contexto da produção, do consumo e da reutilização;
- Promover serviços e comunicação, mas também, quando necessário, evitar produtos sem sentido, com veemência.
Design e História
O Início do Design
A origem de produtos configurados com função otimizada pode ser encontrada até nos tempos ancestrais. Os escritos do artista e engenheiro/construtor romano Vitruvius (cerca de 80-10 AEC) são uns dos mais antigos sobre arquitetura, como os “Dez livros sobre a arte da construção”, um dos primeiros e mais completos trabalhos sobre regras do projeto e da configuração. Assim ele descreve a estreita ligação entre teoria e prática:
Um arquiteto deve ter interesse pela arte e pela ciência, ser hábil na linguagem, além de ter conhecimentos históricos e filosóficos.
Toda construção deve obedecer a três categorias: a solidez (firmitas), a utilidade (utilitas) e a beleza (venustas).
Vitruvius
Com isso, Vitruvius lançou as bases para o conceito de funcionalismo, que somente no século XX foi retomado pelo mundo e determinou o design moderno.
Só podemos falar do design industrial em seu sentido atual na época da revolução industrial, na metade do século XIX. Primeiro, porque a divisão do trabalho separa o projeto da manufatura, o que até então era feito pela mesma pessoa. Essa especialização se estabeleceu ao longo do tempo, de tal forma que hoje os designers e os grandes fabricantes passaram a ser responsáveis apenas por parte de um produto. Essa divisão de trabalho provocou, nos anos 70, a necessidade de que jovens designers procurassem novamente unir projeto, produção e comercialização em conjunto.
No meio do século XIX, começa na Inglaterra a luta de alguns designers contra o estilo empolado do design de interiores no estilo Empire. Desde a Idade Média os ambientes na Europa perdiam em expressão, na medida em que o mobiliário passava a ter mais importância que o ambiente. Giedion constatou (1987) que um ambiente na Idade Média, mesmo sem nenhuma peça de mobiliário, aparentemente vazio, sempre parecia arrumado, expressando-se pelas suas proporções, seus materiais e sua forma. No auge da época do Empire (1790-1830), o mobiliário era concebido de forma a se tornar parte do ambiente. A perda de expressão dos ambientes foi percebida novamente pelos arquitetos e designers da Bauhaus no século XX. Eles projetaram, então, móveis com presença reduzida, de forma a novamente atrair a atenção para os ambientes.
Henry Cole, na Inglaterra, tentou oferecer medidas educativas no projeto e configuração da vida diária, em uma pequena publicação, o “Journal of Design“. No centro de sua argumentação estava a orientação funcional dos objetos, à qual deveriam se submeter os elementos decorativos e representativos. Foi ele quem também incentivou a realização da exposição mundial em Londres, onde seria dada às nações a oportunidade de apresentar seus inúmeros produtos. “Aprender a ver, ver pela comparação” era o ponto-chave de sua reflexão. Joseph Paxton recebeu a incumbência de projetar o Palácio de Cristal, o pavilhão da Feira Mundial em Londres, de 1851.
As primeiras feiras mundiais (Viena – 1873, Filadélfia – 1876, Paris – 1889 – com a turre de Gustave Eiffel) eram enormes coleções de produtos. Em última instância, eram uma feira de amostras do design, onde o era exposto o estado-da-arte da época.
Todas as épocas foram marcadas por novos materiais e tecnologias: ferro fundido, aço ou concreto não eram mais processados em pequenos estabelecimentos ou manufaturas por trabalhadores manuais, mas por estabelecimentos equipados com maquinário: teares automáticos, máquinas a vapor, marcenarias industriais e construções pré-fabricadas.
Esse processo transformou as condições de vida e trabalho, de forma decisiva. As consequências sociais da industrialização eram difíceis de prever: grande parte da população empobreceu e se tornou proletariado, o ambiente se transformou de modo decisivo por meio dos quarteirões habitacionais e distritos industriais.
Conseideramos os pais do design aqueles contemporâneos à revolução industrial:
- Gottfried Semper
- Arquiteto, emigrou para a Inglaterra em 1849 como refudiado político;
- Forçou uma reforma da atividade projetual na indústria, defendendo uma forma com equanimidade entre função, material e produção.
- Trabalhou com Cole na Exposição Mundial de Londres, em 1851 e lecionava na recém-fundada Escola de Desenho, que influenciou o movimento alemão do Arts and Crafts até o início do século XX.
- John Ruskin
- Historiador da arte e filósofo, procurava um movimento de oposição à revolução industrial na Inglaterra, buscando revitalizar os processos de produção da Idade Média.
- Uma produção artesanal deveria propiciar melhores condições de vida para os trabalhadores e seria um contrapeso à estética empobrecida do mundo das máquinas.
- William Morris
- Em 1861, também na Inglaterra, fundou a empressa Morris, Marschall, Faulkner & Co., para renovar as artes aplicadas.
- Ao seu redor, formou-se o movimento intitulado “Arts and Crafts“, que se validou como reformador social e renovador de estilo. Também funcionalista.
- A nova junção do projeto com a produção condizia a um movimento de renovação das artes e ofícios.
- Voltava-se contra a estética das máquinas.
Assim como Henry Cole, combatiam o decorativismo estabelecido na produção industrial de objetos, que se via cada vez maior. Esse movimento de reforma foi influenciado pelo utilitarismo de John Stuart Mill. Depois dele, a qualidade moral da atividade humana ficou definida pela sua utilidade (ou nocividade) para a sociedade. As distintas categorias do design são um reflexo do utilitarismo.
- Máquina de costura da Singer: em 1879, eram produzidos 400.000 exemplares ao ano.
- Cadeiras de madeira vergada dos irmãos Thonet (Alemanha, Áustria): o processo, patenteado em Viena, de vergar a madeira em vapor quente, foi a base para um sucesso mundial.
- As cadeiras foram mostradas na Feira Mundial de Londres (1851).
- O princípio de padronização, que condicionava a produção em massa, propiciava uma linguagem formal reduzida.
- Nas cadeiras Thonet manifestava-se um dos pensamentos básicos do design: grande produção com estética reduzida, dominante até os anos 70.
- O modelo de cadeira Nº 14 teve, até 1930, 50 milhões de exemplares produzidos, sendo produzida até os dias de hoje.
O Art Nouveau
Perto do final do século XIX, apareceu na Europa um novo movimento, o “Art Nouveau” na França, “Jugendstil” na Alemanha, “Modern Style” na Inglaterra, ou o “Sezessionstil” na Áustria.
Fruto da Revolução Industrial, seu estilo complexo refletia o fortalecimento da nova classe econômica que despontava em poder: a burguesia industrial. Por serem itens complexos, são caros de produzir, o que sublinha ainda mais o poderio econômico de quem adquiria peças do Art Nouveau.
O contexto em que nasce o Art Nouveau é o período anterior à primeira guerra mundial, com franco crescimento econômico e fortalecimento das potências industriais europeias, o advento e consolidação da burguesia como classe dominante, os processos de colonização e o crescimento populacional.
Até então, os objetos eram imitações de estilos anteriores, particularmente greco-romanos, árabes ou persas. Foi a revolução industrial que trouxe o conceito de inovação, fruto de uma sociedade capitalista tecnológica que anseia inovar como forma de fortalecimento de classe.
As críticas feitas por John Ruskin e William Morris aos movimentos anteriores faz surgir a nova arte: o Art Nouveau. Uma arte não-europeia, com forte apelo aos estilos orientais, que são incorporados em seus conceitos.
Surge também a ideia de projeto do produto, justamente para que ele possa ser replicado em massa. A ideia de projeto e o estilo do Art Nouveau acaba contaminando e influenciando as mais diversas áreas, como a pintura, as artes gráficas, o mobiliário, a joalheria, a vidraria, a cerâmica, a tipografia e a escultura.
O representante e líder deste movimento, o belga Henry van de Velde, projetou móveis, objetos e interiores. Para ele, importava apenas a consciência da elite e o individualismo – uma combinação que reencontraremos, no início dos anos 80, no movimento Menphis e no Novo Desenho.
O Art Nouveau tem seu início legitimado na Esposizione Internazionale d’Arte Decorativa Moderna, que acontece em Turim, em 1902, onde designers de quase todos os países se reuniram para expor seus projetos.


Era um sentido de vida artístico que deveria se refletir acentuadamente nos produtos da vida diária. As ideias social-reformistas, como as formuladas por William Morris, foram esquecidas, mas a valorização do trabalho artístico manual renasceu.
O paradoxo do estilo Art Nouveau consiste no fato de que, a priori, foi pensado para a produção em massa. Ao mesmo tempo, cada peça era praticamente única, dada a alta complexidade de adornos e detalhes, o que encarece os custos de produção e acaba reduzindo o número de itens produzidos.
As linhas ondulantes e dinâmicas dão a ideia de movimento. O estilo se aproxima da estética naturalista, composto por formas orgânicas relacionadas com a natureza.

Características do Art Nouveau
- Valorização das formas orgânicas complexas;
- Valorização das linhas sinuosas e assimétricas;
- Os objetos apresentam formas de animais e plantas incorporados, fazendo referência aos temas da natureza.
- Presença da figura feminina e cores frias nas artes plásticas;
- Utilização de conhecimentos nas áreas das ciências naturais (botânica, física) e da matemática;
- Uso inovador de materiais: ferro, vidro (muitas vezes junto com o ferro), madeira e cimento.
- Uso inovador do ferro, particularmente, em formas curvilíneas do mobiliário. A facilidade de curvatura do ferro e sua ductibilidade (que se presta aos mais delicados filamentos, semelhantes a pedúnculos) fizeram com que este metal fosse o favorito do Art Nouveau.
- A ideia do ornamento, chegando a um excesso de decoração.

Observe as colunas em forma de planta, as formas curvilíneas que ornam a escada em harmonia com as linhas de vinha na parede.





Vê-se também uma preocupação com o uso e desenvolvimento da tipografia, de modo a favorecer a produção de revistas e pôsteres. Eram criados tipos de exibição únicos, geralmente com motivos florais, que combinavam com a imagem.


Revistas alemãs


Perceba os detalhes que imitam penas de pavão, olhos e outros elementos decorativos.


Também usa formas florais e orgânicas. Gosta de dar a ideia de escamas e formas de esqueletos. Trabalha bastante com o vidro (como entrada de luz), e os mosaicos, tudo sempre muito colorido.








Gaudi (Espanha): Casa Milá, Casa Batlló (exterior), Casa Lléo Moreira, Igreja da Sagrada Família (exterior), Igreja da Sagrada Família (interior), Parque Guell, Igreja da Sagrada Família (interior) e Casa Battló (interior).


Influências do Art Nouveau no cinema: A Garota Dinamarquesa e Meia-Noite em Paris.


Art Nouveau no Brasil: mansão residencial da família Álvares Penteado (pelo sueco Carlos Eckmann). Algumas construções do bairro Higienópolis, em São Paulo, também têm influência do estilo.
Resumo: Art Nouveau
- O Art Nouveau inaugura um novo estilo.
- O projeto articula forma, conteúdo e tecnologia.
- É fruto do fortalecimento da burguesia.
- Usa do virtuosismo técnico para mostrar o poderio econômico.
- Incorpora novas tecnologias, sendo o ferro curvado a grande paixão do movimento.
- Volta às origens da natureza: os ornamentos são inspirados em formas naturais.
- A ideia do projeto de design se ramifica e influencia diversas áreas.
A Bauhaus
O Art Nouveau foi muito criticado por pensadores da época, especialmente por Adolf Loos, que escreve uma crítica violenta em seu ensaio/manifesto, no início do século XX, onde dizia:
“Ornamento é crime”
Adolf Loos
O estilo do Art Nouveau era bonito, mas extremamente caro, com altos custos em matéria-prima, energia e mão-de-obra. Segundo esses críticos, o ornamento era excesso e representava custos extras. Tudo isso prepara o terreno para o design funcionalista, a base de pensamento da Bauhaus.
A Bauhaus é a primeira grande escola de design, que nasce durante o processo de industrialização da Alemanha, e se fortalece no pós-primeira-guerra, quando o cenário econômico desfavorável era campo fértil para os produtos práticos, funcionais e baratos, sem excessos de material do design praticado na escola.
Na Bauhaus, o design se fortalece como ofício. A ideia de design enquanto projeto é incorporada na escola, que forma profissionais atuantes no mercado e causa assim, uma grande mudança nos procedimentos de produção. Também consagram a ideia de que o valor do design vai além do produto em si: está na experiência, na cor, na forma, que passam uma ideia, passam um valor próprio.
Em 1902, Henry van de Velde fundou em Weimar um seminário de artes aplicadas que, sob sua orientação, transformou-se na Escola de Artes Aplicadas em 1906. Na sua fusão com a Escola de Artes Plásticas, sob a direção de Walter Gropius, formou-se a Staatliche Bauhaus Weimar (Casa da Construção Estatal de Weimar), que veio a ser o ponto central de partida do grande desenvolvimento do design.
Para além de uma grande escola de design, a Bauhaus é um estilo, um jeito de se pensar design, um projeto conceitual. Entre os ideais defendidos pela escola estão:
- A “casa em construção” – a arquitetura é um forte do design bauhausiano, que vê o design para além da construção em si. O design é um todo (a casa, a cidade, os objetos, a organização).
- Visão construtiva: a vivência tem que ser funcional.
- Economicidade e racionalidade: a simplificação da forma barateia os custos de produção e venda dos bens de consumo.
Gropius montou seu quadro docente apenas com artistas abstratos, ou da pintura cubista, como Wassily Kandisky, Paul Klee, Lyonel Feininger, Oskar Schlemmer, Johannes Itten, Georg Muche e László Moholy-Nagy.
Por conta do avanço dos meios de produção industrial no século XIX, projeto e produção ainda estavam separados. A ideia fundamental de Gropius era a de que, na Bauhaus, a arte e a técnica deveriam se tornar uma nova e moderna unidade. “A técnica não necessita da arte, mas a arte necessita muito da técnica” era a frase-emblema. Se fossem unidas, haveria uma noção de princípio social: consolidar a arte no povo.
A Bauhaus ligava-se ao pensamento do movimento de reforma da vida, na virada do século XIX para o XX, que se separava especialmente da cultura habitacional da época. Os móveis pesados em um quarto escuro do século XIX seria substituído por uma nova forma de morar: em ambientes claros, as pessoas modernas do século XX desenvolveriam novas formas de vida.
O Curso Básico
Introduzido por Johannes Itten em 1919/20, era parte importante do currículo e era obrigatório para qualquer aluno. Era o cerne de formação básica artístico-politécnica na Bauhaus.
Tinha, por um lado, a autoexperimentação e a autoaveriguação, avaliando a capacidade própria de cada aluno, e por outro a intercomunicação de conhecimentos básicos de configuração para um aprendizado efetivo da matéria.
O curso básico foi continuado por László Moholy-Nagy, e mais tarde por Josef Albers. Suas metas eram: “Inventar construindo e reparar descobrindo”. Tanto Albers quanto Itten eram metodologicamente indutivos na configuração. Ou seja, eles deixavam os alunos procurar, provar e experimentar, estimulando indiretamente a capacidade cognitiva. A prática era privilegiada, em relação à teoria, mas a análise e discussão dos experimentos fornecia conclusões que eram concentradas em uma “Teoria Geral da Configuração“.
Bauhaus Weimar: Fase de Fundação (1919 – 1923)
O principal elemento pedagógico era o curso básico. Após aprovados, os estudantes poderiam se decidir por oficinas e laboratórios especiais (Gráfica, Cerâmica, Metal, Pintura Metal, Pintura em Vidro, Marcenaria, Oficina de Palco, Têxtil, Encadernação, Escultura em Madeira).
Gropius tinha como proposta tornar a Bauhaus uma instituição educacional que atenderia o comércio e a indústria, e exerceria uma influência viva no design.

Perceba as ideias lineares, a simetria, a ideia do encaixe (posteriormente utilizado em outros ramos da indústria, particularmente a aeronáutica) e a criação de mais espaço.
Cada oficina tinha dois líderes, um “Mestre da Forma” (artista) e um “Mestre Artesão” (técnico). Por este meio, queria-se fomentar e desenvolver as capacidades artísticas e manuais (técnicas) dos alunos de forma equilibrada. Na prática, entretanto, percebia-se logo que o Mestre Artesão acabava se submetendo ao Mestre da Forma. Por isso, surgiram muitos conflitos e tensões sociais, nas quais, também na Bauhaus, o artista autônomo estava no foco. Não havia um preconceito com o artesanato. Pelo contrário, ele era utilizado como ferramenta de aprimoramento técnico e criativo.
O artista deveria atuar socialmente e de forma construtiva na configuração da realidade, equilibrando arte e técnica, buscando o trabalho criativo como expressão do designer, mas ao mesmo tempo se valendo da estandardização da produção industrial. Portanto, nessa época foram concebidos produtos únicos, e daí saíram as primeiras experiências na direção de se estabelecer uma nova estética dos produtos.

Bauhaus Dessau: Fase de Consolidação (1923 – 1928)
O grupo publica seu primeiro manifesto, defendendo o uso das formas simples. Cada vez mais, a Bauhaus foi se fortalecendo e se associando a importantes artistas da época. Tornou-se uma instituição de ensino e produção de protótipos industriais que deveriam ser orientados para a realidade da produção industrial e também para atender as necessidades sociais de uma camada mais ampla da população.
A arte-artesanal não aplicada seria reduzida para privilegiar as tarefas de configuração. Essa fase da Bauhaus se caracteriza por ser mais construtivista e menos artesanal. Um maior rigor formal consolida o estilo da escola. Em parte, pelas tarefas de design solicitadas pela indústria, a Bauhaus se transforma em uma Escola Superior da Forma (Hochschule für Gestaltung). Tipificação, normalização, fabricação em série, produção em massa viraram padrão nos trabalhos da Bauhaus.
Utilizavam ferro e vidro (especialmente o ferro torcido – porém simétrico), formas geométricas simples (círculo, triângulo, quadrado), cores primárias (azul, amarelo, vermelho), a comunicação entre edifício, arquitetura, cidade e mobiliário (com linhas retas, totalmente “clean“). Há também bastante utilização da cor branca nos ambientes interiores, propiciando mais luz e espaço ao ambiente, sublinhando o minimalismo decorativo do design modernista.
As mais influentes oficinas da Bauhaus, até hoje, eram as de metal e marcenaria. Muitos jovens estudantes recém-formados viraram mestres da Bauhaus. Mareei Breuer, aluno desde 1920, se tornou mestre da oficina de metal, em 1925. Com o desenvolvimento do mobiliário em tubo metálico, conseguiu a ruptura na direção do mobiliário funcional e da produção em massa dos produtos. Provavelmente inspirado na construção curvada do guidão de sua bicicleta, Breuer começou a estabelecer relações com as cadeiras Thonet. Uniu a vantagem do tubo de aço, mais resistente, com um material tensionado (trançado, tecido, couro). Com isso, desenvolve um tipo totalmente novo de assento, cujo princípio foi logo aplicado a mesas, armários, estantes, escrivaninhas, camas e outros móveis combinados.
São desenvolvidas tipografias, utilizadas no lançamento da Revista Bauhaus e do Livro Bauhaus. Herbert Bayer, outro estudante que passou a lecionar na Bauhaus, cria a tipografia sem serifa (sans serif), ou seja, sem adornos, limpa, estandar, sem diferenciação entre caixa alta e baixa.

Repare nas cores simples e na ideia de encaixe.




Cartazes de Joost Schmidt e Fritz Schleifer

Perceba a ideia do encaixe também presente na arquitetura, as formas retangulares, as janelas em fita (o vidro usado para iluminação) e a ideia dos pilotis (finas colunas que suspendem o edifício) que criam vãos embaixo dos prédios.
A construção arquitetônica (inclusive da escola) era suspensa e blocada para que os vãos se tornassem um espaço de convivência e de passagem, com ligação para o jardim e áreas externas da escola. O dentro está em harmonia com o fora, conceito também observado no uso das janelas em fita.

Diferente do vitral gótico, a utilização de grandes janelas pivotantes de vidro exemplifica a questão da funcionalidade para além da forma: as janelas serviam para iluminar e ventilar. A multifuncionalidade do objeto influenciou o design moderno, sendo exacerbada no design pós-moderno.

A meta da atividade de projeto na Bauhaus era a de criar produtos para camadas mais amplas da população, que fossem acessíveis e tivessem alto grau de funcionalidade. Na segunda fase foi desenvolvido o termo “funcional” em teoria e prática.
Continha uma orientação social: “o domínio das necessidade da vida e do trabalho” e levar a sério as “questões do consumo de massa” (Moholy Nagy). O caráter social fez com que a escola fosse vista como comunista, na época, sofrendo diversas perseguições, especialmente pelo partido nazista.
Função significava a ligação de duas suposições:
- é válido, no design, combinar harmonicamente as condições da produção industrial (técnica, construção, material) com as condições sociais;
- condicionar as necessidades da população às exigências do planejamento social.
O responsável por este desenvolvimento foi o arquiteto suíço Hannes Meyer, que em 1927 passa a ser chefe do departamento de Arquitetura e fundamenta uma formação sistemática e científica para a área.

Bauhaus Berlin: Fase de Desintegração (1928 – 1933)
Em 1928, Hannes Meyer é nomeado diretor da Bauhaus e são introduzidas novas disciplinas e oficinas na escola: Fotografia, Plástica, Psicologia entre outras. Meyer sempre defendeu veementemente um engajamento social dos arquitetos e designers. O Designer deve servir ao povo, satisfazer suas necessidades elementares no âmbito habitacional com produtos adequados.
O conceito inicial de uma escola superior de arte foi definitivamente liquidado. Muitos artistas deixaram a Bauhaus, inclusive Meyer, em 1930, debaixo da pressão política eclodida na Alemanha e emigrou com 12 alunos para Moscou.
Mies van der Rohe foi indicado como novo diretor, porém em 1932 os nazistas fecham a Bauhaus em Dessau, e Mies procura continuar a escola em Berlin como uma entidade independente e privada, mas foi dissolvida em 20 de julho de 1933.

Metas da Bauhaus
- Atingir, pela integração de todas as artes e as manufaturas subordinadas à arquitetura, uma nova síntese estética.
- Atingir, pela execução de produção estética, as necessidades das camadas mais amplas da população, obtendo uma síntese social.
Essas duas metas se tornaram, no decorrer das décadas seguintes, os aspectos centrais da atividade configurativa.
A contribuição pedagógica fez da Bauhaus uma “Escola da Vida“, onde se praticava, por docentes e estudantes, uma filosofia de vida construtiva em comum. Como definiu Moholy-Nagy, na fase de Weimar, igualou-se a uma espécie de vida comunitária integral. Essa identidade comum era decisiva para o fervor quase missionário com que as ideias da Bauhaus eram difundidas pelo mundo afora.
Consequências Produto-Culturais da Bauhaus
- Foi criado um novo tipo de profissional para a indústria: alguém que domine igualmente a técnica moderna e a respectiva linguagem formal (postulado “Arte e Técnica – uma nova unidade”, Walter Gropius). A prática profissional do tradicional artista/artesão se transforma na prática do designer industrial como conhecido atualmente.
- Desenvolvimento de uma “ciência da configuração“, com métodos da “pesquisa do comportamento” e da “análise funcional“. Para Gropius (1926), “um objeto é determinado pela sua ‘essência‘. Para ser projetado de forma que funcione corretamente – um vaso, uma cadeira, uma casa – sua essência precisa ser pesquisada; pois ele necessita cumprir corretamente sua finalidade, preencher suas funções práticas, ser durável, barato e bonito“. Foi cunhado o termo “dados essenciais“, que determinam que cada produto tem informações típicas e funções práticas que determina sua classe de produtos.
- A atitude social, evidente no trabalho dos alunos da Bauhaus, especialmente Wilhelm Wagenfeld, convencido de que produtos de massa deveriam ser baratos, mas ao mesmo tempo bem desenhados e produzidos.
Nós não começamos nosso trabalho a partir da arte, mas sim das coisas e das pessoas. Vemos a forma artística de outro modo. equiparada à forma
Wilhelm Wagenfeld, 1948
técnica.
Entretanto, é importante notar que os projetos da Bauhaus, nos anos 30, não tinham nenhuma influência na cultura de massa da época. Os compradores dos produtos da Bauhaus pertenciam a círculos intelectuais, que eram abertos a novos conceitos de projeto. Apesar disso, podemos hoje falar, em retrospectiva, de um estilo bauhausiano que foi decisivo para o design no século XX.
O Particular Significado da Bauhaus para o Design de Mobiliário
O design na Bauhaus foi essencialmente cunhado por um grupo de jovens arquitetos, cujo interesse central era a função dos produtos e os ambientes dos usuários.
Com uma ruptura radical com o século XIX, onde se valorizava a decoração e a pelúcia nas casas burguesas, os designers agora se dirigiam para as questões tecnológicas.
A fascinação pelos novos métodos de construção se traduzia em “móveis tipo“, que exploravam todas as novas possibilidades funcionais. Na época, entretanto esta fascinação se desenvolvia em uma simbologia própria. O tubo de aço virado se tornou um sinal de “vanguarda” intelectual. As chances de mercado deste mobiliário foram captadas, primeiro nos anos 60, por exemplo, pelos fabricantes italianos, como a firma Cassina.
Consequências Pedagógicas da Bauhaus
A emigração política dos estudantes e docentes da Bauhaus conduziu a um desenvolvimento de pesquisa, ensino e prática deste conceito inovador pelo mundo afora.
O modernismo no design dialoga com os conceitos da Bauhaus. O modernismo no design brasileiro, por exemplo, tem características muito próprias, mas é ao mesmo tempo muito influenciado pelas ideias da Bauhaus.
























































